A escalada do conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã pode impactar até 40% das exportações brasileiras de carne bovina em 2026, conforme as expectativas da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). De acordo com a Abiec, os países do Oriente Médio importam em torno de 10% da carne bovina brasileira, no entanto, os portos da região funcionam um hub logístico importante para o setor, ancorando o trajeto de navios que seguem para a China, que é o maior comprador de carne bovina do Brasil.
Roberto Perosa, presidente da Abiec, associação que representa as indústrias exportadoras de carne bovina, classifica a situação na região como gravíssima. Segundo ele, a estimativa de exportações superiores a 3 milhões de toneladas de carne em 2026 – em 2025, o Brasil exportou 3,8 milhões de toneladas de carne bovina – pode ser severamente impactada e o conflito pode interromper a chegada de 1 milhão de toneladas de carnes à Ásia, por exemplo.
Isso pode acontecer porque, segundo ele, os portos da região, como os do Catar, Omã e Emirados Árabes Unidos, são pontos de paradas estratégicas dos navios que partem do Brasil. A partir da região, a carga segue por terra a diversos países vizinhos. Caso o conflito não cesse, este trajeto será interrompido. Segundo Perosa, navios que transportam carne bovina do Brasil já estão parados em alto-mar, aguardando autorização para atracar em algum porto do Oriente Médio.
Ameaça à carne de frango
De acordo com a consultoria Agrifatto, o bloqueio nos portos da região, com destaque para o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez, atingem cerca de 10 países que são importantes parceiros comerciais do Brasil. No ano passado, esse grupo, que inclui a Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, representou 14,52% do volume total de carnes bovina, suína e de frango exportada pelo Brasil.
Em um relatório divulgado na tarde de terça-feira (3), a consultoria alerta que o aumento na percepção de risco eleva os prêmios de seguro marítimo e pressiona o valor dos fretes. Além disso, o redirecionamento de rotas marítimas tende a alongar os prazos de entrega das mercadorias.
Entre as proteínas brasileiras, a carne de frango é a que apresenta maior vulnerabilidade ao conflito. Em 2025, o Brasil enviou 1,27 milhão de toneladas de frango para esses dez países, o que equivale a 24,55% de tudo o que o setor exportou no ano.
Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita concentram quase 70% desse volume. “No curto prazo, os impactos tendem a se concentrar na logística e no custo financeiro”, afirmam os analistas da Agrifatto no relatório.
Já a carne bovina ocupa a segunda posição em volume para a região. No ano passado, foram destinadas 205,57 mil toneladas para esses mercados, representando 5,66% do total exportado pelo Brasil. A tendência para o boi é de menor volatilidade em comparação ao frango. A cadeia de proteína suína é a que menos deve ser impactada pelo conflito, já que por questões religiosas, as compras são menores e concentradas nos Emirados Árabes Unidos.
Um ponto relevante destacado pela Agrifatto é a mudança no fluxo comercial com o Irã. Desde 2020, sanções financeiras dificultaram os pagamentos diretos ao país persa. Isso forçou a criação de um corredor alternativo via Emirados Árabes Unidos. Esse rearranjo explica por que a participação dos Emirados no total de proteínas enviadas pelo Brasil subiu de 8,63% em 2015 para 11,16% em 2025. Enquanto isso, as vendas diretas para o Irã perderam espaço nas estatísticas oficiais devido a esses canais informais de abastecimento.
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