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Ações conjuntas dos governos federal, estadual e municipais permitiram até este sábado (4/5) o resgate de 11 mil pessoas afetadas pela catástrofe socioambiental que atinge o Rio Grande do Sul (RS) desde 26 de abril. Agravada pela mudança do clima, a tempestade é a pior registrada no Estado e já deixou ao menos 55 mortos.

Segundo balanço divulgado pela Defesa Civil na noite deste sábado, há outras sete mortes sob investigação, 107 feridos e 74 desaparecidos. Mais de 510 mil pessoas foram afetadas, 13,3 mil estão desabrigadas e 69,2 mil, desalojadas.

Mais de 1,6 mil pessoas e ao menos 32 helicópteros, quatro aeronaves, 866 viaturas e 182 embarcações participam das operações. A prioridade neste momento é realizar resgates e salvar vidas.

A tragédia ocorre devido à massa de ar quente estacionada no Centro-Sul do País, que impede o avanço de frentes frias e concentra a precipitação no Rio Grande do Sul e no sul de Santa Catarina. O fenômeno é intensificado por um dos El Niños mais fortes da história, agravado pela mudança do clima.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou em entrevista que alertas sobre a necessidade de combater a mudança do clima foram ignorados por décadas e seus impactos estão evidentes em eventos climáticos extremos mais intensos e frequentes. A resposta às tragédias, completou a ministra, deve ocorrer em duas frentes:

“A ação deve ser contundente e em dois eixos: lidar com a emergência já instalada, fazer a gestão do desastre, como estamos nos esforçando para fazer no Rio Grande do Sul. E, ao mesmo tempo, fazer a gestão do risco, que é o que há de mais complexo no mundo. É ter capacidade de antecipação e prevenção de fenômenos cujos desdobramentos nem sabemos ainda o alcance ou magnitude”, disse Marina à GloboNews.

Segundo a ministra, o governo trabalhará para ações estruturantes e preventivas nas cidades mais vulneráveis do país. Estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, identificou 1.942 municípios suscetíveis a eventos climáticos extremos . Também são necessárias medidas emergenciais, como reforço de sistemas de alertas, rotas de fuga, áreas de alojamento, entre outras medidas.

O combate à mudança do clima, completou a ministra, é prioridade para o governo federal: a retomada da governança socioambiental em 2023 e das ações de fiscalização em 2023 permitiu redução de 50% das áreas sob alertas de desmatamento na Amazônia, segundo o sistema Deter, do Inpe. O resultado permitiu evitar o lançamento na atmosfera de aproximadamente 250 milhões de toneladas de gases causadores do efeito estufa, equivalente às emissões anuais de um país como a Colômbia.

Reunião emergencial
Ao menos 317 (64%) dos 497 municípios do RS foram afetados pela catástrofe, de acordo com o governo do Estado. Neste sábado, o Rio Guaíba ultrapassou os 5 metros pela primeira vez em sua História. O maior nível registrado até então era 4,76 metros, em 1941.

Em Porto Alegre, o ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Paulo Pimenta, destacou que os esforços de resgate concentram-se na região metropolitana da capital, principalmente nas cidades de Canoas e Eldorado do Sul:

“O limite do que será colocado à disposição é o limite da necessidade. O presidente já disse: não há limite orçamentário, pessoal ou de equipamento”, afirmou o ministro em entrevista coletiva. “Amanhã será um dia decisivo para entendermos a evolução desta tragédia e segunda-feira poderemos olhar para o que foi feito e planejar junto o que será feito a partir da próxima semana.”

O governo federal instalou neste sábado sala de comando operacional em Porto Alegre para agilizar a resposta à crise e a integração entre os diferentes níveis de governo, e o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres opera em alerta máximo. Há também sala de situação no Palácio do Planalto, que teve sua terceira reunião neste sábado com participação de 15 ministros.

Além de Pimenta e Waldez Góes (MIDR), que estão no Rio Grande do Sul, participaram as ministras Marina Silva (MMA) e Nísia Trindade (Saúde). Também estiveram presentes os ministros Rui Costa (Casa Civil), Renan Filho (Transportes), Alexandre Silveira (MME), Paulo Teixeira (MDA), Silvio Costa (Portos e Aeroportos), Alexandre Padilha (SRI), Jader Filho (Cidades), Juscelino Filho (Comunicações), Carlos Fávaro (Mapa), Wellington Dias (MDS), o titular do Gabinete de Segurança Institucional, general Marcos Antonio Amaro dos Santos, entre outros.

Os ministros decidiram pedir para que Estados centralizem o recebimento de doações ao Rio Grande do Sul em seus Corpos de Bombeiros. Segundo o general Hertz do Nascimento, vice-chefe do Estado Maior do Exército e responsável pela coordenação das ações de resgate em Porto Alegre, há maior necessidade de colchões, roupas de cama e de banho.

Ações do Governo Federal
No domingo (5/5), o presidente Lula irá ao RS acompanhado de nove ministros e dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira. É a segunda viagem do presidente ao Estado desde o início da crise, após viagem na quinta-feira (2/5).

Medidas já anunciadas pelo governo federal incluem liberação do pagamento de R$ 580 milhões em emendas parlamentares ao Estado. Cerca de R$ 540 milhões serão destinados pelo Ministério da Saúde, que também instalará Centro de Operação de Emergências em Saúde Pública (COE) para planejar e coordenar medidas de emergência na região.

Haverá também enviou de 20 kits de insumos e medicamentos, que atenderão 30 mil pessoas em um mês. Hospital de campanha foi instalado no município de Lajeado, com enfermaria, 40 leitos, dois consultórios para atendimento e um para triagem. A previsão é que outra unidade seja montada no município de Estrela.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) concluiu a remoção das 359 famílias que vivem em área de risco das barragens sob alerta em Santa Maria e Bento Gonçalves. O Ministério do Desenvolvimento empenhou R$ 8,4 milhões para a aquisição de 52 mil cestas básicas, e haverá disponibilização de 2 mil cestas de alimentos a cozinhas solidárias.

Foi anunciado ainda envio de 100 agentes das Forças Nacionais, monitoramento de impacto e evacuação em Terras Indígenas no RS e remanejamento de recursos para o aeroporto de Porto Alegre. Os Correios transportarão mais de 50 toneladas de roupas e calçados doados pela Receita Federal às vítimas e o Ministério das Cidades anunciou R$ 55 milhões para a contenção de encostas no Estado, entre outras medidas.

Um milhão de pessoas sem água
Em todo o RS, há 1,05 milhão de pessoas sem abastecimento de água e 350 mil imóveis sem energia. Segundo última atualização, 128 trechos em 61 rodovias têm bloqueios totais ou parciais causados por quedas de barreiras, pistas submersas, riscos de deslizamento, entre outros fatores.

Ao menos 186 municípios estão sem serviços ou internet. Para facilitar o contato, o Ministério das Comunicações determinou que a Telebras envie 34 antenas emergenciais ao RS, equipamentos que serão usados por equipes de resgate, monitoramento de áreas afetadas, hospitais de campanha e para disponibilizar internet sem fio em abrigos, entre outras finalidades.

As aulas estão suspensas em todas as 2.338 escolas da rede estadual, impactando 209.622 estudantes. Há 627 escolas afetadas em 218 municípios, e 246 delas foram danificadas. Ao menos 34 centros educacionais foram transformados em abrigos.

O governador Eduardo Leite afirmou que o Rio Grande do Sul “vai precisar de uma espécie de um Plano Marshall de reconstrução”, referindo-se ao plano de ajuda econômica criado pelos EUA para ajudar os países da Europa Ocidental na reconstrução pós-Segunda Guerra Mundial:

“Vamos precisar de um plano de excepcionalidade em processos, em recursos, em medidas absolutamente extraordinárias, porque quem já foi vítima da tragédia não pode ser vítima, depois, da desassistência e da demora da burocracia”, afirmou o governador.